13/05/2018

Luta para alterar a condição e não voltar à escravidão

Cinthia Vilas Boas, Secretária de Políticas Sociais do SinPsi

O Brasil do final dos anos 20 passava por uma grande abolição, rupturas e diferenças sociais começavam a ser estudadas por diversas categorias profissionais. Em 1888, com a abolição da escravidão, não houve qualquer política de integração social, a população negra continuava excluída.
Depois do 13 de maio, onde a maioria das negras e negros já não eram mais escravizadas, veio o 14 de maio. E o que fazer com esse povo? Inferiorizar e exterminar. Afinal, ele não podia aparecer mais que a população dominante branca, que continuaram com privilégios.
As teorias da superioridade racial branca se engrandecia naquela época e hoje vive todos os resquícios, assim como a população negra vive os resquícios da inferioridade. O que tem de diferente hoje?
Vamos aos dados: o Atlas da Violência 2017, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no País. A população negra corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios. Atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Além disso, os negros possuem 23,5% a mais de chances de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças.
Outro dado é que enquanto a mortalidade de mulheres não-negras (brancas, amarelas e indígenas) caiu 7,4% entre 2005 e 2015, entre as negras o índice subiu 22%. Isso sem contar as mortes que não chegam na estatística, as anônimas e guerreiras que tombam lutando por justiça e igualdade de direitos e as ?simbólicas?, já que quando um jovem negro morre, sua mãe e seus familiares morrem junto.
Como cuidar dessa subjetividade? Diante da conjuntura social, várias entidades, grupos e setores da luta antirracista vêm se organizando para denunciar, discutir e propor estratégias de enfrentamento à essa situação. Estamos pensando vida da população negra falando de saúde, família, trabalho, espiritualidade, juventude, entre outros pontos.
Somando-se a esses esforços, o Conselho Federal de Psicologia e alguns Conselhos Regionais, lançaram um caderno de referências técnicas para atuação do psicólogo. São subsídios teóricos e técnicos para a psicologia no intuito de refletir como os profissionais que atuam nas mais diversas áreas e instituições que lidam direta ou indiretamente com esse problema podem ampliar seus referenciais de atuação nesse enfrentamento. Participaram dessa edição do caderno ativistas do movimento negro, psicólogos e estudiosos da temática, que discutem questões raciais desde muito tempo dentro da psicologia.
O fato histórico chamado de abolição completa 130 anos no Brasil agora no mês de maio. Mas o que significa 130 anos de uma suposta liberdade e desumanização? Cada estrutura do país é formada pelo derramamento do sangue negro e indígena. Para eliminar o racismo é necessário reconhecer seus ataques nas mais diversas formas, no cotidiano de cada brasileira e brasileiro. É necessário também respeitar o lugar de fala e escutar com delicadeza as dores vividas. Precisamos contribuir para alterar a condição e não voltar a escravidão. Enquanto sindicato, precisamos pensar nas condições de trabalho e não colaborar com as analogias ao trabalho escravo, analisar constantemente as reformas trabalhistas e garantir negociações que favoreçam o trabalhador (a).